Contacto WhatsApp 963640100

Universidade Lusófona

Inauguração | Perspe(c)tivas

Uma manhã de chuva e uma descoberta inesperada.

Carla Rodrigues Cardoso


Dia 25 de Abril, dia da Liberdade. Em frente a casa, uma azáfama de pessoas deixa perceber que o novo Centro de Saúde de Algés está a ser inaugurado. Num feriado, porquê" Se fosse dia útil os utentes podiam começar logo a usufruir do equipamento. Estranho...

Dia 5 de maio. A chuva de primavera voltou. A potes. Decido ir ao novo Centro de Saúde. Há cerca de dois anos que lá em casa estamos sem médico de família, desde que o nosso abandonou uma carreira de décadas por falta de condições de trabalho. Chego de guarda-chuva, mas sem conseguir evitar uma “molha”. Frente às portas automáticas do edifício de linhas arquitetónicas modernas nada acontece. Procuro o horário de funcionamento. Não existe. Encosto o nariz ao vidro e, para meu espanto, vejo dois operários... E um segurança que se aproxima. Com a boca quase colada ao intervalo entre os vidros da porta, diz-me que o Centro só abre lá para o final do mês.

Regresso a casa, incrédula. Não resisto a “googlar” o assunto. Leio no Diário de Notícias que a inauguração contou com a presença do ministro da Saúde. A notícia é factual, da Lusa. Dá o essencial, incluindo declarações do presidente da câmara municipal de Oeiras, Paulo Vistas. Com pena evidente, constato que o DN se limitou a reproduzi-la. Nem uma palavra sobre o facto de as portas se manterem fechadas após a inauguração. E esta é apenas uma das muitas histórias que podiam ser exploradas.

Este texto vai ser mais longo (as minhas desculpas!), mas não resisto a levantar uma pontinha do véu. O novo Centro vem substituir instalações “provisórias” que funcionaram mais de 20 anos (perdão, que funcionam!) num edifício de habitação coletiva localizado no nº 20 da Rua Damião de Góis. Um local que “desde início se revelou inapropriado para albergar um serviço com este tipo de exigências”, considera a autarquia. E explica porquê: “o espaço é exíguo, caótico e desordenado”. Confirmo e acrescento - capaz de envergonhar qualquer país, apesar de estar situado num concelho que integra o Top 10 dos municípios portugueses.

Depois, há a história da construção do Centro de Saúde. Obra inaugurada a 27 de maio de 2010, com Isaltino Morais, o então presidente da câmara de Oeiras, a lançar a primeira pedra. Seis meses depois, obras interrompidas. O município foi notificado “da recusa de visto do Tribunal de Contas”. Só a 27 de Março de 2012, foi possível lançar novo concurso público. Previsões: (re)início da obra no 1º trimestre de 2013, com a duração de 24 meses, ou seja, até meados de 2015.

Mais dois anos de derrapagem nas previsões e o Centro é inaugurado, por uma coincidência feliz em ano de eleições autárquicas, no dia da Revolução dos Cravos. E permanece fechado.

Diretora da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação Geral da Redação LOC