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Universidade Lusófona

Semáforo | Perspe(c)tivas

Pare, leia e descubra um misterioso sistema tricolor.

Carla Rodrigues Cardoso


"Ficou satisfeito com o serviço?", pergunta a máquina multibanco depois de retirarmos o cartão e o pagamento estar concluído. Abaixo vemos um semáforo horizontal: vermelho para desagradado; amarelo para indiferente; verde para feliz. É só escolher a tecla. E com o premir selecionado, atribui-se uma classificação a quem está do outro lado da caixa.

É assim todos os dias numa conhecida cadeia de supermercados portuguesa. Todos os dias, largas centenas de vezes, quem dá a ler o código de barras de cada produto, é avaliado num segundo enquanto retém a respiração. Com algumas exceções. Se o pagamento for em dinheiro, não há lugar a perguntas. E se nada se premir, descobri há pouco, o semáforo acaba por se cansar e desvanece-se.

A primeira vez que inquiri sobre o sistema tricolor, disseram-me que era para avaliar o serviço de pagamento multibanco. "Ai, sim?", perguntei desconfiada, "Mas é só aqui?" Quem estava na caixa garantiu-me que assim era, "então para que havia de ser?", acrescentou com serenidade. Pensei "lá se foi a crónica" e senti-me muito mais descansada.

Entretanto, uma mudança subtil foi-se operando nos supermercados em causa. Deixou de haver funcionários mal dispostos a contabilizarem as compras. O registo passou a alternar entre a solicitude e a quase apatia. Uns meses mais tarde, voltei à carga. "Estes botõezinhos não servem mesmo para avaliar os funcionários?", insisti. A resposta incomodada, quase magoada, num tom perto do inaudível, gelou-me: "afinal, parece que servem, sim...".

Sou professora. Já tive milhares de alunos. Imagino-me no final de cada aula a vê-los caminharem para a porta e pararem num alegre semáforo, para classificarem o "grau de satisfação" obtido com o meu desempenho. Injusto? Assustador? Disparatado? Impossível?

Da próxima vez que estiver a pagar as suas compras e lhe parecer que está a ser extraordinariamente bem tratado, verifique se - para lá do sorriso perfeito e da postura amável -, não lhe está a ser esticada uma máquina com um semáforo em rodapé. As consequências dos vermelhos, amarelos e verdes em termos de sanções, prémios ou progressão nas carreiras destes funcionários, desconheço. Mas há uma primeira vítima incontornável: a liberdade de se ser pessoa. Este sistema até pode ser legal (será, mesmo?), mas não deixa de ser profundamente perverso e completamente amoral.

Diretora da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação Geral da Redação LOC