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Universidade Lusófona

Toque | Perspe(c)tivas

Palavras leves e um murro no fundo da alma.

Carla Rodrigues Cardoso


Foi há mais de um ano. Mas aquela frase regressa de quando em quando. Assombra-me.

Estava na fila do supermercado. Por distração, toquei na pessoa que arrumava as compras à minha frente. Teria mais de 70 anos, certamente, uma senhora de cabelo cinza claro, nem curto nem comprido, ligeiramente ondulado.

- Desculpe! - disse-lhe eu.

- Desculpe, porquê? - retorquiu com um sorriso bem disposto.

- Toquei-lhe, foi sem querer, desculpe - expliquei.

- Ah! Mas toque, toque, pode tocar! Hoje em dia, também, já ninguém me toca!

As palavras saíram-lhe leves, com humor. Nem sombra de tristeza ou mágoa. Ela estava a brincar.

Mas o "já ninguém me toca" que abandonou os lábios daquela desconhecida que não voltei a ver, persegue-me.

Olho para dentro e penso. No toque da minha mãe, a aconchegar-me os lençóis. Nos abraços e beijos dos meus avós, tios, primos e amigos. Na eletricidade do primeiro toque apaixonado. No amor desmedido do contacto com a pele de um filho recém-nascido.

Reserva-se o toque carinhoso ao círculo reduzido das pessoas que amamos ou, pelo menos, gostamos o suficiente para permitirmos o contacto físico. Como será viver sem sentir ninguém?

Diretora da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação Geral da Redação LOC