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Universidade Lusófona

Erros | Perspe(c)tivas

Tudo o que correu "mal" ontem prova o caráter extraordinário do dia 27 de junho de 2017.

Carla Rodrigues Cardoso


As empresas visam o lucro. Empresas que trabalham no mesmo ramo de negócio competem entre si. Muitas vezes, de forma agressiva e impiedosa. O que aconteceu ontem é, por isso, especialmente digno de nota.

Os média portugueses - rádios e estações televisivas - uniram-se num projeto comum: a transmissão de um concerto solidário em prol das vítimas dos incêndios que assolaram Pedrogão Grande e os conselhos circundantes, matando 64 pessoas e destruindo os alicerces das vidas de muitas mais.

Sim, as televisões mantiveram os intervalos comerciais. Sim, cada estação fez os seus diretos e intervenções ao longo da transmissão - mas coordenadamente, uma vez que, salvo raros minutos, um dos canais transmitia o que se via no palco, enquanto os outros dois mostravam o que bem entendiam. Nas rádios, foi ainda mais extraordinário - uma emissãoúnica para todos, um único posto de comando.

O que distingue o concerto solidário de ontem é a origem: querer ajudar outros que não os próprios. Não foi uma gala de autopromoção de um canal, cantor ou produto. Foi um espetáculo em que todos os intervenientes trabalharam de forma voluntária para terceiros. Ser solidário é isso - dar o que se pode (seja dinheiro, trabalho, carinho), a quem precisa. Todos temos alguma coisa para dar, nem que seja um sorriso.

Depois, houve o "caso" Salvador.

Há pessoas que procuram a fama, que sonham com a fama, e que ficam felizes quando a conseguem alcançar. Há outras que a conquistam por mero acaso e não sabem como lidar com essa sereia que rapidamente se pode transformar num monstro triturador. Especialmente se estamos a falar de uma fama que transforma um anónimo num ídolo, da noite para o dia.

Percebe-se, claramente, que Salvador Sobral é um ídolo acidental. Ora, o que se pede a um ídolo é do domínio do sobre-humano. Exige-se a perfeição. Afinal, são ídolos! A pressão é de tal forma elevada que muitos não resistem.

Salvador vai sobrevivendo como consegue. Mal. É uma pessoa, vê-se como uma pessoa. Não percebe porque o veem de outra forma. Não entende o mar de gente que quase o engoliu no aeroporto à chegada a Lisboa vindo da Eurovisão. Choca-o, em particular, o aplauso acrítico que se presta a um ídolo. E, com o coração na boca, vai dizendo o que pensa. Mas dizer em voz alta o que se pensa, sem filtros, é muitas vezes chocante. Quando um ídolo jovem e recente o faz, o murro no estômago é inevitável. O desabafo humano de alguém com um estatuto quase divino é incompreensível.

Ontem, o que importa destacar, acima de tudo, são os erros pontuais. Tudo o que pode correr mal num direto longo, montado numa semana, envolvendo dezenas de pessoas. O som a falhar aqui e ali, o microfone que não funciona, o oráculo que surge a despropósito, o indomável Salvador a trocar as voltas a todos, cantando em inglês e pasmando plateia e audiência de todo o mundo, depois de anunciado o "Amar pelos dois". Importa destacar os erros porque mostram quão real, quão humano, quão extraordinário foi o concerto e a transmissão simultânea de ontem. Só pessoas de carne e osso erram.

Não me lembro de nada semelhante desde a reação da sociedade civil portuguesa ao massacre de Santa Cruz de 12 de novembro de 1991, em Timor. A geração adulta atual não tem memória dessa onda de indignação que fez pessoas de todas as idades saírem massivamente à rua para gritarem contra o horror que chacinava do outro lado do mundo. E valeu a pena. Fizeram ouvir a sua voz mais alto, houve consequências, mudaram o curso da história.

Agora, resta aguardar o que vai acontecer hoje e nos meses e nos anos que vêm depois de ontem, para podermos avaliar se neste segundo momento em que tantos portugueses se uniram em prol de outros, (mais próximos, é certo), será ou não recordado de forma idêntica.

Diretora da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação Geral da Redação LOC