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Universidade Lusófona

Venezuela, Emirados Árabes Unidos e as petro-infraestruturas

"Tamanho e petróleo não são sinónimos de visão e eficiência."

Opinião Elói J. F. Figueiredo

Elói J. F. Figueiredo


Recentemente li na TIME um artigo sobre o colapso da Venezuela. A Venezuela iniciou a extração de petróleo no início do século XX e, apesar da existência de desigualdade social, permaneceu relativamente estável até finais dos anos 80. Contudo, a Venezuela desmoronou-se, mesmo sendo hoje o país com maior reserva de petróleo. Em 2008, quando o barril de petróleo chegou aos $140, o Governo aumentava a despesa pública construindo casas e distribuindo computadores e frigoríficos em bairros mais pobres.

Em paralelo, recentemente tive oportunidade de visitar 6 dos 7 emirados dos Emirados Árabes Unidos (EAU), onde Abu Dhabi e Dubai lideram o desenvolvimento económico. Nos anos 70, as atividades do petróleo rondavam os 90% do PIB dos EAU; hoje, ronda os 30%. Apesar da existência de um regime político “não ocidental” e de relatos de violação de direitos dos trabalhadores, o que mais me impressionou nos EAU foi a visão (ou ambição). Os EAU não se limitam a copiar o ocidente, mas a desenhar o futuro. No caso particular do Dubai, a descoberta de petróleo em 1966 financiou mega infraestruturas (ex. Porto de Jebel Ali), transformando o emirado num centro de comércio regional. Com o declínio da produção de petróleo em 1985, foi implementada uma estratégia de diversificação das políticas económicas de forma a transformar o Dubai num centro financeiro, de serviços, de electrónica e de comércio global. Atualmente, apenas 5% do PIB está associado a atividades de petróleo. O Dubai está assim hoje determinado em promover a sua localização de ligação ocidente-oriente, a sua infraestrutura (em desenvolvimento) e o seu estatuto de paraíso fiscal para tentar oferecer aos investidores qualidade, eficiência e mínima burocracia.

Pode-se argumentar que o Dubai é uma cidade e que os EAU é um país pequeno. Mas tamanho e petróleo não são sinónimos de visão e eficiência. Enquanto os líderes da Venezuela distribuíam dinheiro do petróleo pela população sem aumentar o seu rendimento efetivo, os EAU optaram por investir em infraestruturas que permite agora as pessoas estabelecerem os seus próprios negócios; de acordo com o Relatório de Competitividade Global, ao nível das infraestruturas, a Venezuela ocupa o 119.º lugar; ao invés, os EAU ocupam o 4.º lugar. Não concordo com tudo o que se faz nos EAU, mas não tenho dúvidas de que investimento em infraestruturas é essencial para desencadear desenvolvimento a longo prazo, embora mantenha ainda algumas reservas sobre a sustentabilidade das mesmas.

Elói J. F. Figueiredo
Diretor da Licenciatura em Engenharia Civil
Universidade Lusófona, Lisboa