Contacto WhatsApp 963640100

Universidade Lusófona

Zimler, um ateu amante das religiões

"Um Evangelho segundo Zimler", a sessão que serviu para refletir sobre as religiões na literatura

"O Evangelho segundo Lázaro" é o nome do mais recente romance do escritor americano, Richard Zimler, e serviu de base para um debate a cerca das religiões e da sua inserção na literatura, em contexto do 4º Ciclo de Conferências de Desafios da Contemporaneidade ao Cristianismo.

A sessão que decorreu na passada quinta-feira, dia 23, reuniu Zimler, o escritor Miguel Real, e os docentes da Lusófona, Paulo Mendes Pinto - responsável pela área das Ciências das Religiões, Alexandre Honrado e o professor José Brissos-Lino.

Zimler, que já reside em Portugal há 26 anos, partilhou durante o encontro um pouco sobre a sua história e da forma como esta se reflete na sua obra.


"Eu adoro falar sobre as pessoas cujas vozes foram sistematicamente silenciadas ao longo do século. Dá-me prazer e sinto-me útil, porque os primeiros-ministros, os presidentes, os generais e os demais não precisam de mim. Já há muitas pessoas que vão escrever a história da perspetiva dos mesmos. Quem precisa de mim são as pessoas esquecidas" - declarou o escritor americano.

Na última obra de Zimler a história gira em torno de Lázaro de Betânia, personagem bíblica cuja informação histórica sobre o mesmo é escassa.

"Eu comprei este livro com alguma curiosidade, não só porque já conhecia o autor, mas também porque achei muito interessante esta história a volta do Lázaro, pois a bíblia fala muito pouco dele e temos muito pouca informação histórica. Achei muito interessante a construção deste segundo Lázaro pós-ressurreição" - declarou o professor José Brissos-Lino.

Zimler também afirmou que não escreve para provocar uma má reação nas pessoas, pois não faz parte da sua personalidade. "Eu sou um romancista sério. Quero abordar os assuntos mais importantes: a vida, a morte, a crueldade, a intolerância, o amor, a paixão, a amizade. Portanto, se por causa disso posso provocar uma reação negativa nas pessoas, aceito isso como uma parte na minha condição como escritor".

Mesmo sendo ateu, desde os seus 17 anos que lê muito seriamente sobre o budismo, judaísmo, sufismo, cristianismo, entre outros. Após muitas pesquisas e investigações, sente-se confiante e seguro para abordar este tema.


Pouca escrita religiosa em Portugal

"Zimler respeita o judaísmo e respeita Cristo" - disse o escritor Miguel Real. O escritor ainda felicitou Richard Zimler pela obra e declarou que "de toda a Europa, Zimler é quase de certeza um escritor, que mesmo não tendo uma prática judaica, tem um diálogo coerente com a cultura judaica. Isto deve-se à sua vocação de observador e de investigador, que o faz ir até ao pormenor do pormenor".

Também referiu que são poucos os escritores portugueses que têm a ousadia de escrever a cerca das religiões, e que daqueles que escrevem, são poucos os que a respeita.

Paulo Mendes Pinto comentou que a pouca tendência dos escritores portugueses para escrever ficção em que se abordam temáticas religiosas, pode estar relacionada com o receio de ferir alguma suscetibilidade através da fantasia e a pouca reflexão sobre crenças religiosas.

"O português comum, mas também o intelectual não tem ferramentas sobre o religioso e escrever sobre o tema torna-se difícil. É um problema da nossa educação e da nossa escolaridade" - explicou Paulo Mendes Pinto.

Yauri Neto
Comunicação Institucional
Notícias Lusófona

Leia, também, a "Entrevista: Richard Zimler"