Colóquio Imaginar as Línguas: Confluências e Representações Pluridisciplinares
Uma reflexão conjunta sobre a diversidade linguística, a cultura e as relações de poder na Europa contemporânea
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
“As línguas não são apenas meios de comunicação, mas, acima de tudo, formas de pensamento através das quais os seres humanos apropriam-se intelectualmente do mundo. É, portanto, necessário aprender uma língua para compreender como se pensa nessa língua, para conhecer a alteridade e para "fazer amizade" com o vizinho europeu.” Jürgen Trabant, Babel ou o Paraíso, as línguas da Europa.
No seguimento de uma primeira colaboração em torno do projeto “Europa transcultural num mundo global”, que destacava a importância da reflexão sobre as línguas e os seus usos, a Universidade Paris Nanterre e a Universidade Lusófona voltam a colaborar num projeto em torno do papel fundamental das línguas.
As línguas não se limitam à justaposição ou à partilha do fio ténue da palavra; enriquecem-se por meio de movimentos complexos que envolvem a discussão de ideias. No mundo universitário, a própria questão da escolha da língua utilizada para publicar e comunicar os trabalhos de investigação impõe uma estratégia que, muitas vezes, se baseia no modelo dos rankings internacionais de classificação das universidades. A ciência, seja ela natural ou social, nunca é neutra. É atravessada por questões institucionais e relações de poder (ou de retórica) políticas. Transmite-se mediante análises e palavras que têm um conteúdo político, pelo simples facto de a linguagem – tal como Bourdieu e Foucault demonstraram – ser sempre um espelho do contexto de uma determinada época e de um determinado lugar e, ainda, um reflexo da situação social de quem fala.
O colóquio será uma oportunidade para debater a reconfiguração cultural da Europa atual, mas também de uma Europa com um passado imperial e colonial, questionando os regimes de colonialidade do conhecimento que moldaram de forma duradoura as relações entre línguas e culturas na Europa e para além dela. Numa altura em que o reconhecimento do conhecimento passa por um número muito reduzido de línguas, algumas são sistematicamente excluídas da grande circulação do conhecimento (esta marginalização afeta de forma ainda mais acentuada certas variedades linguísticas, frequentemente menorizadas ou insuficientemente reconhecidas).
No entanto, os saberes que se exprimem nestas línguas subalternizadas permitem deslocar as lógicas dominantes e lançar sobre o mundo um olhar diferente. Importa, por conseguinte, adotar práticas linguísticas que escapem a formas de pensamento sistematizadas; abordar as línguas à luz do seu poder de invenção, de imaginação e de produção de saberes; e criar modos de dizer as línguas e as culturas na sua pluralidade, reconhecendo a sua criatividade e aquilo a que Édouard Glissant justamente chama um "imaginário das línguas". A produção de sentido não é universal, mas de natureza sociocultural.
O sentido emerge dos encontros e de uma dimensão afetiva própria da experiência humana. Desejamos fazer deste colóquio uma caixa de ressonância para intercâmbios, reflexões e questionamentos, num momento em que a linguagem é atacada tanto nos seus sentidos como nos seus usos, uma “guerra das palavras” (Barbara Cassin) à escala mundial, invertendo o sentido das palavras e conduzindo à mentira, perante a qual a universidade não pode ficar indiferente.
Programa
09h00 | Receção
09h30 | Sessão de Abertura
- José Bragança de Miranda — Reitor da Universidade Lusófona
João de Sousa Cardoso – Universidade Lusófona
Graça dos Santos – Pró-Reitora Cultura e Professora Catedrática na Universidade Paris Nanterre, diretora do CRILUS (Centre de Recherches Interdisciplinaires sur le Monde Lusophone
10h00 – 11h00 | Conferência
Línguas na era digital: outros imaginários
Ana Paula Laborinho (Universidade de Lisboa)
Debate
Moderação - Cristina Robalo Cordeiro
Pausa café
11h15 | Mesa Redonda
Boas línguas, más línguas, glotofobia e outras histórias
Graça dos Santos (Université Paris Nanterre)
O ensino do português na universidade francesa: criação, implementação e desafios para o futuro
José Manuel Esteves (Université Paris Nanterre)
A língua em movimento: herança, apropriação e pertença nas literaturas africanas
Inocência Mata (Universidade de Lisboa)
A tarefa da escrita: mediações da comunicação e da cultura
Manuel Bogalheiro
Moderação: Ana Paula Laborinho
Debate
12h45 | Almoço
14h30 | Conferência
Falo todas as línguas em inglês
Cristina Robalo Cordeiro (Universidade de Coimbra)
Moderação - João de Sousa Cardoso
Debate
15h30 – 16h30 | Mesa Redonda
Estratégias comunicativas e discursivas de desinformação e manipulação interpretativa no discurso do Chega
Ana Cristina Braz (Universidade Aberta) e André Pereira Matos (Universidade Aberta)
Ouvir e fazer ouvir as vozes nas suas línguas: o hibridismo vernáculo na literatura portuguesa
Felipe Cammaert (Universidade de Aveiro)
Léxico familiar e novilíngua: o novo totalitarismo já nos matou a todos?
Paulo Faria (escritor, tradutor)
Moderação - Graça dos Santos
Debate
Pausa café
16h45 – 17h30 | Conferência
- Língua, Cérebro e Corpo
Carla Filipe (Artista Visual)
Sessão de Encerramento
- Graça dos Santos
João de Sousa Cardoso
José Manuel Esteves





