50 anos de independências africanas: histórias, desafios e memórias
A conferência reuniu especialistas para refletir sobre memórias, desafios e identidades das nações africanas pós-independência
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
No dia 11 de novembro decorreu na Universidade Lusófona – Centro Universitário Porto, uma sessão debruçada sobre o tema “As independências e os projetos das novas nações africanas: 50 anos em debate”. O encontro teve como objetivo assinalar os 50 anos da independência das nações africanas (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), promovendo uma reflexão crítica sobre as lutas de libertação e o percurso pós-independência.
O evento, da organização do CICANT, procurou cumprir um dever de memória, partilhando as múltiplas narrativas que marcaram social, histórica e geracionalmente a independência de Angola. A conferência sublinhou que compreender os contextos atuais destes países exigem um olhar atento sobre o passado colonial e sobre a forma como este influenciou profundamente a construção destas novas nações africanas independentes.
A debater a temática estiveram duas mesas-redondas. A primeira, com o tema “50 anos de independência de Angola”, contou com a participação da escritora angolana Branca Clara das Neves, o jornalista da RTP África Hugo Mendes e a investigadora do CICANT e docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Orquídea Ribeiro. Os intervenientes analisaram os percursos de luta e de libertação e os desafios que se colocaram ao projeto nacional angolano após a independência.
Branca Clara das Neves destacou, como um dos desafios culturais, “o progressivo afastamento e uma distância em termos culturais cada vez maior. A proximidade tóxica a uma distância escavada é cada vez maior. E isto tem consequências muito graves para os artistas naturais dos países e, também, para os artistas portugueses, porque não há fluxo ao contrário do que se passa por exemplo em Paris, em França e no Canadá”. Referiu, ainda, a perda de sinergias entre os países africanos de língua portuguesa. “Todos esperávamos que depois das independências esses laços se reforçassem e contribuíssem para uma espécie de comunidade onde a riqueza das nações se favorecesse pelo contacto entre elas. Temos países riquíssimos em recursos naturais que podiam fornecer à região e essas sinergias parece que também desapareceu. E vê-se onde é mais visível, é exatamente nas artes e na tecnologia”.
Outro desafio, segundo Hugo Mendes, está na falta de meios de comunicação. “Hoje o meio mais usado ainda é a rádio. Não existem jornais regionais, locais, sobretudo em Angola. Portanto, estas deficiências também contribuem para o não desenvolvimento dos nossos países de língua de expressão portuguesa no continente africano”, pois considera que “os media são fundamentais para aquilo que se pretende do ponto de vista de desenvolvimento dos países”.
A segunda mesa-redonda teve como tema “os 50 anos de independência das nações africanas” e contou com os contributos de José Carlos Venâncio, docente da Universidade da Beira Interior (UBI), Francisco Topa e Francisco Soares, investigadores do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM) e docentes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Os convidados expuseram a importância de compreender os processos de independência de Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau, sublinhando como estas histórias estão entrelaçadas e constituem respostas a uma longa experiência colonial portuguesa.
A realização desta conferência transmitiu a ideia de que não existe uma história única ou hegemónica. Pelo contrário, é necessário valorizar diferentes memórias e narrativas, reconhecendo que muitos sujeitos contribuíram para a afirmação das novas nações africanas e para o fortalecimento da democracia.
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Texto
Bruna Pereira
Imagem
Bruna Pereira
Edição
Paulo Renato
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