Meg Stuart no Multiplex: corpo, energia e criação em estado de incerteza
Multiplex recebe Meg Stuart no Cinema Batalha com screening de filmes e masterclass sobre corpo e cinema na criação e perceção artística
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O Batalha Centro de Cinema abriu as portas, a 15 de maio, à 5.ª sessão do ciclo de conferências Great Artists on Campus #1, com Meg Stuart, uma das figuras mais influentes da dança contemporânea internacional, cujo trabalho atravessa a dança, o teatro, o cinema e as artes visuais.
Esta 5.ª sessão assumiu um caráter especial ao integrar o Multiplex, evento anual da Licenciatura em Comunicação Audiovisual e Multimédia (CAM), promovendo um encontro entre criação artística, pensamento crítico e práticas experimentais.
À semelhança das edições anteriores do ciclo e do próprio Multiplex, a programação iniciou-se com a apresentação de um conjunto de obras da artista. Foram exibidos alguns filmes de Meg Stuart, como Intermission, onde a suspensão, a interrupção e a fragmentação do gesto criam uma sensação de espera e contenção; River of Cars, centrado na relação entre corpo e espaço urbano, explorando dinâmicas de deslocação contínua e desorientação na cidade contemporânea; The Only Possible City, que propõe uma leitura do espaço urbano enquanto construção coletiva marcada pela coexistência entre proximidade e isolamento; Shelf Life, dedicado às questões do envelhecimento, da repetição e da memória corporal, evidenciando a vulnerabilidade física e emocional dos corpos; ou como What Holds Us, que reflete sobre as relações humanas, o apoio mútuo, o contacto e a interdependência, entre outros.
Após a projeção, Meg Stuart conduziu uma masterclass seguida de conversa com o público e acompanhada por João Sousa Cardoso, Diretor da Licenciatura em CAM, onde aprofundou algumas das questões que atravessam a sua prática e obra artística.
A coreógrafa apresentou o seu trabalho como uma investigação contínua sobre o corpo enquanto lugar de experiência, memória e transformação, num cruzamento permanente entre linguagens e formatos.
A artista iniciou a sua intervenção com uma questão central: “de onde vem o conhecimento artístico e como sabemos aquilo que queremos criar?” Para Meg Stuart, criar implica aceitar um estado de incerteza, em que o artista trabalha frequentemente sem respostas claras, aproximando-se do processo com uma “mente de principiante”, sem pressupostos fixos. A improvisação torna-se, assim, um meio de descoberta do que ainda não é conhecido, sendo o não saber entendido não como vazio, mas como espaço de potencialidade.
Uma das ideias mais marcantes da sessão foi também a noção de que tudo é energia — emoções, movimentos, relações e espaço. Stuart vê as emoções como “energias com cor”, interessando-se por frequência, vibração e presença, o que transforma o trabalho artístico numa prática de afinação sensível e de atenção ao que se move entre corpos e contextos.
Neste enquadramento, as emoções são entendidas não apenas como conteúdo psicológico, mas como matéria física de trabalho coreográfico — rubor, suor, riso, choro, hesitação ou impulsos interrompidos, tornam-se material de movimento. Interessa-lhe sobretudo o instante anterior à fixação do “gesto”: o momento antes da reação, antes da “forma” se estabilizar e antes da emoção ganhar nome.
Ao longo da sessão, Stuart destacou ainda a influência do cinema e do vídeo no seu trabalho, apesar de ter vindo originalmente da dança. Ao começar a trabalhar com imagem em movimento mais tarde na sua prática, incorporou conceitos cinematográficos na sua abordagem coreográfica, como o zoom, o corte, a mudança de plano, a interrupção ou as transições bruscas. Nesta perspetiva, o corpo pode também “editar” o espaço, aproximar ou distanciar, funcionando como uma câmara em movimento.
O trabalho de Meg Stuart afirma-se, assim, como uma investigação contínua sobre o corpo enquanto território de experiência, memória e transformação, num cruzamento constante entre disciplinas, modos de perceção e linguagens artísticas.
Ainda como parte integrante do Multiplex, houve às 21h do dia 15 de maio, a exibição do filme Sulphur Edges, da sua autoria. Um filme gravado na Ilha de São Miguel, nos Açores, que combina registo coreográfico e cinematográfico. A obra apresenta uma sequência de ações físicas e gestos coreografados, filmados de forma a dar destaque à relação entre corpo, câmara e espaço (a própria ilha). Em vez de uma narrativa linear, o filme não segue uma narrativa linear, mas uma narração feita através de fragmentos de movimento e situações performativas, explorando diferentes estados físicos e dinâmicas corporais.
O Multiplex ainda conta com mais dois momentos: um que já decorreu no Espaço Mira, a 27 de maio, onde foram exibidas as curtas-metragens dos estudantes do 2.º ano de CAM e as instalações dos estudantes do 3.º ano e o último, a 28 de junho, que decorrerá no Batalha Centro de Cinema, onde irão passar os filmes dos finalistas da Licenciatura de Comunicação Audiovisual e Multimédia.
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Texto
Bruna Pereira
Susana A. Oliveira
Cobertura
Lara Sousa
Paulo Renato
Edição de Vídeo e Fotografia
Paulo Renato





