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Embater ou aproximar-se?

22.07.26 - 14h52
José A. Brito

Carla Cardoso


A reunião das 9.30 tinha começado. O Sr. Y discursava com uma migalha de pão (do pequeno-almoço?) mesmo no cantinho da boca. A migalha era hipnotizadora; todos os olhares, mais ou menos disfarçadamente, a focavam. Hora e meia depois a reunião acabou, e a migalha mantinha-se estoicamente equilibrada no mesmo lugar para gáudio dos espetadores.

Pode ser uma migalha ou uma gralha num documento oficial. Em 99,9% vê-se o erro, o lapso ou a falha, mas nada se faz. Por preguiça também, mas quase sempre com receio de ferir suscetibilidades, de parecer um ataque ou uma tentativa de ridicularizar alguém. A verdade é que, por norma, as pessoas reagem mal quando são confrontadas com algo menos positivo.

Essa dificuldade em criticar construtivamente e em aceitar críticas construtivas tem consequências. Alimenta e faz perdurar os erros, não permite aprendizagem nem evolução. Ver o que está mal, fechar os olhos e deixar continuar não é bom serviço, não demostra amizade, nem sequer lealdade. Permitir que o Sr. X continue a “ir de encontro” quando pretendia “ir ao encontro” impede-o de continuar a embater quando pretende aproximar-se.

Ninguém pode retificar o que não sabe estar errado. Mas existe medo de magoar. E medo de ser magoado. Medo. E tudo fica paralisado.


Carla Rodrigues Cardoso
Professora Associada (ECATI)
Coordenadora Científica do MagLab (CICANT)
Universidade Lusófona - Centro Universitário de Lisboa

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